Muita emoção e desafios escolares misturados com todos os questionamentos, medos, inseguranças e "certezas" naturais de pré-adolescência. Pela primeira vez, uma sala mista, com meninas e meninos... Puxa, muita novidade para ser assimilada.
Nessas horas, Deus sempre encaminha um Anjo para nos "estimular e guardar, governar e guiar". LEILA IZAR. Era a professora daquela turminha animada, digamos assim! O Anjo que nos levaria pela mão da atenção, da dedicação, do carinho, da seriedade, a atravessar aquele portal imponente, ao mesmo tempo temido e desejado.
Ela era síria. Não usava trajes típicos, mas usava roupas bem sérias, de senhora. Para nós era, mesmo, uma senhora - Dona Leila.
Lembro da sua voz, suave e meio rouca, dos seus olhos bem grandes e atentos, da sua forma de permitir a participação de todos e da sabedoria para controlar o excesso das brincadeiras.
Mas lembro, sobretudo, de duas lições que me ficaram para toda a vida: uma, de Português, outra, de Cidadania.
A outra lição foi ainda mais sui generis: simples e cheia de ensinamentos e que ficaria marcada em nossa mente e em nosso caráter. Tínhamos aula de segunda a sexta, apenas, e a professora Leila nos convidou para irmos na escola na manhã do sábado. Quem pudesse, levaria algum produto de limpeza. Sim, isso mesmo, ela nos ensinou a limpar, cuidar da nossa sala de aula. Muitas carteiras foram lixadas e envernizadas, muitas janelas, limpas e puderam revelar seu brilho, o quadro negro ficou realmente negro e preparado para novos registros, a mesa da professora se revelou bonita e imponente, o chão, finalmente, foi observado, notado, tratado.
A Dona Leila providenciou um intervalo regado a sanduíches e limonada, bem rápido, e logo partimos para a conclusão do trabalho, quase ao final da tarde. Apenas nós naquele colégio imenso. Sem questionamento, sem preguiça, sem bagunça...
Voltando na segunda-feira, formos surpreendidos com a sala cheia de balões, café da manhã e a presença da Dona Leila, da Diretora e da Orientadora de Alunos. A sala estava realmente linda! Até o final do ano, ninguém riscou carteira, deixou papel rasgado em qualquer lugar, nem mesmo apontou lápis sem ser em cima da lixeira.
Não lembro de ter ficado tão emocionada lá como fico aqui, agora, relembrando essa história, porque parecia tudo natural, não sabíamos avaliar a importância daquela experiência. Mas uma coisa é certa: amávamos e respeitávamos aquela professora que apenas ensinava. E, percebemos bem depois, não apenas as lições básicas e devidas - nos preparou para a vida como nenhuma outra.
Dois anos depois, já cursando o ginásio, veio a notícia: Dona Leila havia morrido com um ataque do coração. Sua idade: 25 anos! Fora nossa Mestra aos 23 anos!
Cada vez que acompanho notícias da Síria, tudo isso retorna bem vivo na minha mente e choro. Choro pensando em como a querida professora Leila se sentiria assistindo tudo isso, talvez reconhecendo parentes longínquos sem poder agir, sem conseguir pegar em suas mãos e conduzi-los a uma paragem de paz e de esperança.
Que a senhora, professora Leila, esteja num lugar bonito, tranquilo, inspirador e seguro como aquela nossa sala de aula, ensinando, sendo amada, respeitada e fazendo a diferença no caminho dos seus alunos.



