quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Minha professora síria.

Há quanto tempo estou afastada deste lugar... Este meu espaço surgiu num momento de grandes transformações e por vários motivos - inclusive falta de motivo - me silenciei.. Passados alguns anos, novamente em período de ebulição, de novas transformações, retorno. E o motivo principal, uma lembrança muito doce, especial: minha professora do quinto ano primário. Sim, estávamos em 1964 e tínhamos de cursar o quinto ano de admissão para o ginásio - Instituto de Educação Estadual Padre Anchieta, colégio estadual -, vindos do primário, feito em escola municipal - Grupo Escolar Roca Dordal.

Muita emoção e desafios escolares misturados com todos os questionamentos, medos, inseguranças e "certezas" naturais de pré-adolescência. Pela primeira vez, uma sala mista, com meninas e meninos... Puxa, muita novidade para ser assimilada.

Nessas horas, Deus sempre encaminha um Anjo para nos "estimular e guardar, governar e guiar". LEILA IZAR. Era a professora daquela turminha animada, digamos assim! O Anjo que nos levaria pela mão da atenção, da dedicação, do carinho, da seriedade, a atravessar aquele portal imponente, ao mesmo tempo temido e desejado.

Ela era síria. Não usava trajes típicos, mas usava roupas bem sérias, de senhora. Para nós era, mesmo, uma senhora - Dona Leila.

Lembro da sua voz, suave e meio rouca, dos seus olhos bem grandes e atentos, da sua forma de permitir a participação de todos e da sabedoria para controlar o excesso das brincadeiras.

Mas lembro, sobretudo, de duas lições que me ficaram para toda a vida: uma, de Português, outra, de Cidadania.

Utilizando seu próprio sobrenome, ensinou uma regra de ouro de ortografia: "se vocês quiserem formar um verbo a partir de um substantivo, precisam ver como é a raiz dessa palavra: se nela houver um S, então o verbo é escrito com S; se  não houver S, devem lembrar do meu nome, Izar, e grafar com Z. Exemplos: Paralisia = Paralisar; Romance = Romantizar." Teria forma mais marcante para guardar para sempre, na mente e no coração, um conhecimento desses?

A outra lição foi ainda mais sui generis: simples e cheia de ensinamentos e que ficaria marcada em nossa mente e em nosso caráter. Tínhamos aula de segunda a sexta, apenas, e a professora Leila nos convidou para irmos na escola na manhã do sábado. Quem pudesse, levaria algum produto de limpeza. Sim, isso mesmo, ela nos ensinou a limpar, cuidar da nossa sala de aula. Muitas carteiras foram lixadas e envernizadas, muitas janelas, limpas e puderam revelar seu brilho, o quadro negro ficou realmente negro e preparado para novos registros, a mesa da professora se revelou bonita e imponente, o chão, finalmente, foi observado, notado, tratado.

A Dona Leila providenciou um intervalo regado a sanduíches e limonada, bem rápido, e logo partimos para a conclusão do trabalho, quase ao final da tarde. Apenas nós naquele colégio imenso. Sem questionamento, sem preguiça, sem bagunça...

Voltando na segunda-feira, formos surpreendidos com a sala cheia de balões, café da manhã e a presença da Dona Leila, da Diretora e da Orientadora de Alunos. A sala estava realmente linda! Até o final do ano, ninguém riscou carteira, deixou papel rasgado em qualquer lugar, nem mesmo apontou lápis sem ser em cima da lixeira.

Não lembro de ter ficado tão emocionada lá como fico aqui, agora, relembrando essa história, porque parecia tudo natural, não sabíamos avaliar a importância daquela experiência. Mas uma coisa é certa: amávamos e respeitávamos aquela professora que apenas ensinava. E, percebemos bem depois, não apenas as lições básicas e devidas - nos preparou para a vida como nenhuma outra.

Dois anos depois, já cursando o ginásio, veio a notícia: Dona Leila havia morrido com um ataque do coração. Sua idade: 25 anos! Fora nossa Mestra aos 23 anos!

Cada vez que acompanho notícias da Síria, tudo isso retorna bem vivo na minha mente e choro. Choro pensando em como a querida professora Leila se sentiria assistindo tudo isso, talvez reconhecendo parentes longínquos sem poder agir, sem conseguir pegar em suas mãos e conduzi-los a uma paragem de paz e de esperança.

Que a senhora, professora Leila, esteja num lugar bonito, tranquilo, inspirador e seguro como aquela nossa sala de aula, ensinando, sendo amada, respeitada e fazendo a diferença no caminho dos seus alunos.








terça-feira, 23 de setembro de 2008

Paris, je t'aime vraiment!

Esta semana faz vinte e cinco anos que voltei de Paris, onde vivi como se estivesse num maravilhoso, por vinte cinco dias. Desde então, sinto falta dessa cidade extremamente bonita, inspiradora, perfeita. Até hoje, não consegui retornar, mas por lá permanece um pedaço muito significativo do meu coração, da minha alma. Todo meu amor por Paris e, de modo geral, pela França, começou nas aulas de francês, no ginásio. Mme. Hélène era a professora e que fazia questão de assim ser chamada. Sempre tinha fotos lindas de Paris, tiradas em suas férias. Também fazia tradução das músicas da época e isso era muito especial.
Ir para a França foi um dos atos mais estravagantes na minha vida. Não fui, simplesmente, com a intenção de passear: fui para ficar. Uma atitude radical, definitiva. Um rompante dos grandes e, sem qualquer planejamento, apenas o desejo de esquecer um amor que começava a ser passado. Pedi demissão de um trabalho onde estava havia dez anos, vendi tudo que possuía, separei roupas e objetos pessoais que cabiam em duas malas e lá fui eu. Um querido amigo me acompanhou nos primeiros dias da viagem, em Portugal e na Espanha, onde permaneci mais do que o esperado, pois fui surpreendida com dificuldades em conseguir meu visto de entrada. Isso mesmo, não fui com o visto, pois tudo me parecia tão mais fácil e perfeito longe daqui...
Quando, finalmente, cheguei, respirei fundo, procurando absorver o máximo possível daquele momento. Não pude, porém, me entregar a esse estado de graça: tive de procurar, imediatamente, um hotel para me hospedar, pois eram mais de onze horas da noite e a estação de trem /gare/ já estava fechando. O escritório /bureau/ de turismo já havia fechado; por sorte, havia um telefone público grátis, de onde se podia ligar para todos os hotéis da cidade, cujos números estavam num catálogo, disponível aos turistas. Hora de testar meu francês aprendido nas aulas do ginásio e em um ano de Aliança Francesa. Comecei a procura por aqueles de uma estrela, mas só recebia uma resposta: c'est occupé. Fui aumentando as estrelas, conforme diminuíam as chances de me acomodar, ao menos, por aquela noite, mas todos estavam lotados. Já me atrevendo a um hotel quatro estrelas, perguntei ao atendente se todos me diziam estar sem disponibilidade porque não tinham mesmo ou porque eu, uma turista brasileira, me apresentava àquela hora e sem reserva, chegando de trem. Ele riu e perguntou de onde eu estava chegando. Falei que de Madri. Disse que então eu fosse para seu hotel que, enquanto isso, ele tentaria um outro para me acomodar. Peguei um taxi e, finalmente, pude observar as ruas, as pessoas, os famosos bares, ouvi até música.
O hotel ficava no Boulevard Saint Germain e já era esperada por um rapaz lindo, que devia ser recepcionista, porteiro, telefonista, pois não vi nenhum outro funcionário por ali. Assim que entrei, trancou a porta, dizendo que todos os hóspedes já haviam chegado e se recolhido. Disse que Paris estava sediando três grandes feiras, naqueles dias, daí a dificuldade de se encontrar acomodação. Gentilíssimo, disse que me eu poderia passar aquela noite ali e que já teria conseguido uma reserva em outro hotel, ali por perto, para o dia seguinte. Então, abriu uma porta lateral à recepção, entrou, transformou um sofá numa ampla cama de casal, colocou os lençóis e travesseiros, me deu toalhas, mostrou o banheiro, contíguo àquela ampla sala, onde eu poderia tomar um banho e descansar. Achando tudo aquilo muito natural, pois estava em Paris, apenas sorri e agradeci. Ele saiu e fechou as portas de correr. Tomei um banho delicioso, vesti uma camisola e afundei naquela cama. O cobertor era bem quente e macio. Relaxei. Estava quase dormindo quando ouvi o barulho da porta se abrindo. Ele entrou, apenas sorriu, pegou outras toalhas, tomou banho e... deitou-se ao meu lado. Começou a conversar como se fôssemos um casal com muito tempo de convivência, contou do curso que fazia na faculdade, que aquele trabalho era um achado, pois podia ir à aula pela manhã e estudar à tarde. Ficava na recepção à noite, até que o último hóspede chegasse e, então, dormia. Pensei que aqueles hóspedes eram muito comportados, todos "em casa" antes da meia-noite. Mal comecei a pensar se ele ia mesmo dormir ali, ele me abraça, me acaricia e percebo sua excitação rápida e inquestionável. Essa era uma situação muito estranha e eu não estava em condições de me fazer de difícil. E ele era lindo. Voilà! Sem mais nem menos, estava tentando me penetrar e estranhou que eu ainda estivesse de calcinha. Mas será que por aqui a coisa é desse jeito, com as garotas assim, já preparadas, para uma transa? Não teve beijo na boca - bem, não o que eu chamo de beijo na boca - e a coisa foi tão fria que eu fiquei mais como observadora do que participante. Virou-se para o lado tão inesperadamente quanto se aproximou, e dormiu. Fiquei ali, deitada, sem sentir nem prazer nem qualquer outra coisa, então vi, por uma fresta da cortina, um pedacinho de céu estrelado. Sorri e mandei um beijo para aquele céu. Estava em Paris e tinha sido, de alguma forma, bem recebida.
Fui acordada por ele com uma bela bandeja de café da manhã. Disse que já estava indo para a faculdade, me deu um beijo na boca e outro na testa e saiu. Comecei a ouvir vozes do outro lado da porta, mas ignorei. Tomei meu café, um banho e arrumei minhas coisas. Quando abri a porta, uma recepcionista sorriu e, assim que despachou dois hóspedes, sorridente me disse que um motorista levaria minhas malas para o hotel cujo cartão estava me entregando. Sugeriu que eu desse umas voltas, conhecesse um pouco as redondezas e, a partir do meio-dia, poderia dar entrada no hotel reservado. Agradeci e acatei as sugestões.
Nunca mais vi meu, digamos assim, anfitrião. Liguei duas vezes para agradecer, mas não o encontrei, então apenas deixei uma mensagem. Estive muito ocupada, conferindo todos os lugares vistos em fotografias, filmes e postais. Meu francês melhorava a cada dia, e até me garantiu elogio de um taxista - isso não é pouca coisa, não, principalmente porque ele era francês mesmo! Disse que eu falava como uma parisiense! Um dos maiores elogios que já recebi na vida. Inesquecível.
Naqueles dias, as emoções se sobrepunham, me surpreendiam: diante da Gioconda, no Louvre, namorando a Torre Eiffel, das escadarias do Trocadéro, conversando com algumas pessoas, nos imprescindíveis cafés, admirando os artistas em Montmartre, enfim, descobrindo a cidade pouco a pouco, aprendendo a ver a vida de um novo ângulo.

domingo, 31 de agosto de 2008

Enterro do meu pai

Dificilmente, num dia desses olhados pela janela, muito longos, cheios de sol e de céu azul, mas sentindo, por dentro, tudo cinza, tudo muito nublado, misturado e confuso, deixo de pensar numa certa menina. Uma menina que, precocemente, perdeu um grande amor...

Uma sala cheia de pessoas, grande parte conhecidas, muitas estiveram lá em casa fazia um ano, numa grande festa, comemorando os quarenta anos da minha mãe. Lembro que, naquele dia, me enfiei toda feliz e surpresa naquela fila de pessoas que riam e cantavam, numa inusitada maneira de se despedirem e irem para suas casas, depois de horas de conversa, salgados, doces e bebidas.

Na minha memória de menina, havia se passado uma eternidade, até o dia em que revia algumas daquelas pessoas na mesma sala. Mas era tudo muito diferente. Cortinas negras cobriam janelas e portas, as roupas eram escuras e as conversas em tom muito baixo, sussurrante. Uma tia querida me pegou no colo, me possibilitando ver meu pai. Estava dormindo, e tinha umas manchas arroxeadas ao lado do rosto, desconhecidas por mim. Estava tão próxima dele que foi natural dar-lhe um beijo. Espontâneo, carinhoso. Voltei para o chão e fiquei olhando aquela estranha cama. Ficava no alto de uma mesa, parecia uma caixa. Olhei por baixo da mesa e vi um aparelho que parecia ventilador - finalmente descobri de onde vinha aquele cheiro estranho, forte, ruim. Saí de perto e fiquei olhando aquelas pessoas se aproximarem do meu pai. Fecharam a caixa onde ele estava e começaram a levá-lo embora. Como sempre fazia, ia ele à frente, conduzindo uma multidão atrás de si.

Uma sala quase vazia. Vejo a mim, tão pequenina, aos cinco anos. Em pé, com um vestido amarrado na cintura. Na minha frente, uma cadeira onde minha mãe estava sentada, segurando ao colo meu irmão. Ele completaria um ano dali a vinte e cinco dias. Também seria aniversário do meu pai e, certamente, haveria uma nova festa naquela sala.

Não houve a festa, não teve mais risos nem conversas animadas naquela sala. Ficou congelada a imagem da menina, sua mãe e um bebê. Nenhuma expressão, nenhum gesto, nenhuma palavra.

Uma noite, pensei naquela sala. Era uma coisa tão distante, morávamos em outra casa... Lembrei de cada detalhe e chorei. Parecia que o choro tinha ficado represado, preso, até que eu tivesse a condição de compreender o que acontecera e, finalmente, perceber e sentir a grande perda. Chorei tanto, abraçada ao travesseiro, que a garganta queimava. Tudo dentro de mim queimava de dor. Um pensamento brotou de forma natural, mas definitiva: eu tenho nove anos e hoje eu compreendi que meu pai está morto e, por isso, não vai mais voltar.

Anos depois, soube que o aparelho na sala, sob o caixão do meu pai, era um ozonizador, usado na época para esterilizar o ar, quando havia uma grande concentração de pessoas.

domingo, 10 de agosto de 2008

Risos

O banheiro está, cada vez mais, integrado aos demais cômodos, à decoração. Já os vemos sem paredes, fazendo parte de suítes arrojadas e maravilhosas. Sentar-se ao vaso sanitário, tomar um banho, são atos naturais. Isso é óbvio, alguém poderia me dizer, e eu concordo. Mas nem sempre foi assim. Tudo, relacionado ao corpo, era muito escondido, não declarado, mas indiretamente tocado, quando necessário ou em ocasiões especiais. O primeiro banheiro de que me lembro, ficava relegado à importância que se dava aos dejetos do corpo. Por isso, ficava bem afastado da casa, no fundo do quintal. Tinha, apenas, vaso sanitário, descarga com cordinha, local para se colocar o papel - não queiram saber o tipo, digo apenas que não era um papel destinado exclusivamente à finalidade conhecida - e o chuveiro. No vaso, não havia tampa, sentava-se diretamente na louça. Talvez uma estratégia para não se demorar demais, pensando na vida, lendo algum pequeno recorte de notícia, inventando uma música... Após cada banho, enxugava-se todo o banheiro, e por isso estava sempre limpo. Era um banheiro para todos - cinco pensionistas, minha mãe, minha irmã, meu cunhado, meu sobrinho, meu irmão e eu. Ruim era sentir vontade de fazer xixi durante a madrugada. Um dia, meu cunhado me levou para assistir o filme da Branca de Neve. À noite, ainda impressionada pelas imagens da tela, indo para o banheiro, olhei para o céu e uma lua cheia me fez lembrar da figura da bruxa malvada, mostrando uma reluzente maçã... Fui diminuindo o passo, o coração cada vez mais acelerado, então cometi uma das primeiras transgressões da minha vida: abaixei a calcinha, fiquei de cócoras e fiz o xixi no ralo - que ficava no meio do caminho entre a casa e o banheiro -, olhando para a lua, tentando visualizar a figura de São Jorge e do dragão, talvez querendo ser salva de maldades da velha nariguda.
Aos nove anos, pela primeira vez fui à casa dos meus avós, num sítio do interior de São Paulo. E ali eu aprendi, dentre tantas outras coisas, que havia um tipo muito estranho de banheiro: uma pequena casinha, bem distante da moradia, onde havia, apenas, um buraco no chão, com tábuas à volta, nas quais se apoiavam os pés e se tentava ficar agachada, mantendo o equilíbrio. Coisa mais incrível não conhecerem um vaso sanitário igual aos que havia lá em casa e na escola, pensava eu, enquanto me firmava para não cair naquele lugar asqueroso. Quanto ao banho, principalmente porque fazia muito frio, achei que era melhor do que em casa: uma grande bacia, no quarto, com água quentinha, trazida numa chaleira, sempre fumegante sobre o fogão a lenha. Seria um prenúncio das banheiras, hoje colocadas, praticamente, dentro de quartos amplos e modernos.
Alguns anos depois, mudei-me para o Rio de Janeiro e minha mãe - Maria José - veio morar comigo. Era um apartamento muito confortável, daqueles antigos, no bairro do Flamengo. O banheiro era imenso, com banheira e tudo. Minha mãe me perguntou que peça era aquela ao lado do vaso sanitário. Bidê, disse-lhe eu, explicando função e funcionamento daquela novidade. Dias depois, eu estava distraída vendo um programa qualquer na tv, quando minha mãe saiu do banheiro, rindo muito. Era engraçado ver minha mãe rir. Em primeiro lugar, porque não era tão comum, e também porque quase não emitia som, mas a barriga se movimentava para cima e para baixo, e sua expressão ficava engraçada, parecia chorar. Nesse dia, ria tanto que fez um gesto ainda mais raro que as risadas: jogou o corpo, relaxado, contra a parede, e não conseguia falar. O que foi, mãe? Fala! Então ela se sentou ao meu lado e disse que foi experimentar - como era mesmo o nome? Ah, sim, bidê. Então, fui experimentar e, enquanto estava controlando a quantidade de água, pensei: já que não comes, bebes! Não, minha mãe não era portuguesa, mas conviveu, por anos, com meu pai, legítimo lusitano, que falava muita besteira, quem sabe, fazendo-a rir daquela sua maneira, meio tímida, meio sem jeito, muito mais do que eu tenha podido registrar!
Rimos muito nesse dia! E nem nos demos conta de que, ali, começamos um novo relacionamento, o de amigas, que riam juntas de uma coisa que, há algum tempo atrás, seria incompatível num relacionamento mãe e filha.

sábado, 26 de julho de 2008

Inesquecível travessia...


Era apenas uma menina cursando o primário. Sempre com boas notas, acumulando algumas medalhas de Honra ao Mérito - devidamente entregues em cerimônias no cinema do bairro, onde os pais dos melhores alunos babavam orgulhosos e felizes. Para nós, era apenas mais uma oportunidade de estarmos com as colegas, reunidas, num local diferente, sem preocupação com aula ou com outra coisa qualquer. Nesse tempo, as salas de aula separavam meninas e meninos, situação que se repetia nos recreios, com espaços e brincadeiras bem diferentes entre elas e eles. Fora esses eventos, era aula todos os dias, de meio-dia e meia até quatro e meia da tarde, lição de casa, sessão de desenho, em preto e branco, na tv, e depois o Repórter Esso - que não me interessava muito e então era hora de ler um livro ou mesmo uma revista da irmã mais velha.
De maneira parecendo inesperada, estava de férias de final de ano e me dei conta que havia concluído o quarto ano. Primário terminado. Hora de procurar outra escola, um colégio, para fazer da quinta até a oitava série. O melhor do meu bairro, e o segundo melhor da cidade de São Paulo, era o Instituto de Educação Padre Anchieta. No ano anterior, chamava-se Instituto Feminino de Educação Padre Anchieta e dois anos depois, seria o Instituto Estadual de Educação Padre Anchieta. Um colégio lindo, enorme, com janelões austeros e imponentes. Eu tinha onze anos e me apaixonei por aquele lugar assim que atravessei os seus portões. Fui sozinha pedir informações para me matricular. Mal sabia eu as notícias que me aguardavam.
Na secretaria, me deram uma lista dos documentos necessários, incluindo duas fotos, e ainda a informação de que as inscrições terminariam naquele dia, ao final da tarde. Acredito que tenha olhado para a funcionária com olhos arregalados, tamanho o susto, e comecei a chorar. Mas não fiquei parada. Fui correndo e chorando para casa.
Minha mãe estava às voltas com o almoço e alguns pensionistas já estavam sentados à mesa, aguardando. As lágrimas saíam automaticamente dos meus olhos, mas eu explicava com clareza o que era necessário fazer. Então minha mãe, pela primeira vez, deixou que minha irmã servisse os pensionistas. Tirou o avental, pegou seus documentos, minha certidão de nascimento, meus boletins, minha mão, e saímos. Fomos ao Grupo Escolar Roca Dordal buscar meu histórico escolar e, depois, ao estúdio fotográfico. Por uns instantes, meu choro obedeceu minha vontade e estancou, voltando assim que a foto foi tirada. Aguardamos umas duas horas pela revelação, feita em caráter excepcional, dada a urgência da situação - caso contrário, só a teríamos no dia seguinte.
 
Munidas de todos os documentos, minha mãe e eu chegamos ao Anchieta. Apressei-a, quase corríamos, ansiosa que estava por fazer minha matrícula. Na secretaria, outra novidade. Para entrar no ginásio, era necessário fazer o chamado Quinto Ano, de Admissão. Para mim, não fazia qualquer diferença, queria era estudar ali. Tirando a dúvida da minha mãe, a atendente explicou que não teria nenhuma prova, os alunos que fizeram o primário naquele mesmo colégio, tinham sua vaga garantida no quinto ano. Apenas 10 vagas seriam destinadas para alunos de outras escolas, e o critério utilizado seria um simples sorteio. Eu fiquei quieta, já acostumada com as lágrimas teimosas, apenas ouvindo todas aquelas informações. De tudo, entendi que no dia seguinte, sábado, eu teria que ser uma das sorteadas se quisesse estudar ali. E eu queria muito, era tudo o que eu mais queria. Minha mãe assinou os documentos e saímos, levando uma folha de papel com o número da minha inscrição. Já era bem tarde, minha mãe e eu não tínhamos almoçado nem sequer tomado um copo d'água, mas nem demos importância a isso. E ela ainda me atendeu num estranho pedido: que fôssemos à Igreja. Eu me ajoelhei diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida e, por livre iniciativa, pedi a ela que me ajudasse, que eu fosse sorteada. Prometi que se isso acontecesse, além de continuar a ser boa aluna, eu ficaria sem cortar meu cabelo até que terminasse o ginásio. Minha mãe só ficou sabendo da promessa no dia seguinte.
Levantei ansiosa, era o dia mais importante da minha vida. Quando chegamos no colégio, tinha tanta gente que me assustei. Todos aguardando pelo sorteio, pela oportunidade de estudar num excelente colégio, mantido pelo governo do Estado. Depois de um tempo infinito, a diretora veio com uma caixa onde estavam os cartões a serem sorteados. Abriu-se uma clareira à sua volta, e em tom solene, pediu a um senhor bem alto que estava mais afastado, que viesse tirar o primeiro dos dez números. Ele pegou uma ficha de papelão e entregou à dirigente que, em voz bem alta, anunciou: sessenta e nove! Dei um grito tão alto, tão forte, que ela veio me abraçar. Era o meu número! As lágrimas agora tinham outro motivo para correrem livres e soltas. Senti uma alegria tão grande que o abraço da minha mãe era a única coisa que eu percebia à minha volta. Não vi nem ouvi mais nada. Em pensamento, agradecia à imensa ajuda de Nossa Senhora Aparecida e antevia como seriam maravilhosos meus cinco próximos anos.
 
Ponte Atcham, Inglaterra. Fotografia de Robert S. Cortright, copiada do seu site www.hevanet.com/bridgink.

sábado, 12 de julho de 2008

Rotina

Este bebedouro, cuja água sai da boca de um cão, fica no Parque Trianon, em São Paulo. Tentei uma montagem para destacá-lo e ainda mostrar um trecho do parque, que fica em plena avenida Paulista. Eu devia ter uns três anos quando meus pais - Antonio e Maria José - começaram a me levar lá todos os domingos. Essa foi minha primeira rotina - um bom tempo depois, minha mãe me contava que quando ia chegando sexta-feira, eu ficava impaciente, perguntando a toda hora que dia da semana era, quando iríamos ao "bao". Era assim que eu resumia o nome do meu cantinho especial, pelo qual esperava, ansiosamente, durante uma imensa semana. Lá, corria, brincava com alguma outra criança, colhia pequenas flores, comia biju. Também adorava me encostar em alguma árvore e olhar para cima, para sua copa, que parecia encostar no céu. Mas o que mais me dava prazer, era ir para o colo do meu pai para poder alcançar aquele filete de água para beber ou simplesmente ficar me deliciando com o geladinho que escorria pelas minhas mãos. E meu pai todo bobo - como fica todo pai que ama seus filhos - me segurava pelo tempo que eu quisesse brincar com aquela água que até hoje escorre pela boca do meu "bao".
Esses inesquecíveis passeios duraram cerca de dois anos e meio, até que meu pai faleceu e nunca mais minha mãe e eu fomos ao Trianon. Devia ser muito difícil para ela voltar àquele lugar. Eu me acostumei a sentir a falta, do parque e do meu pai e novas rotinas se introduziram.
Um dia, quando já tinha uns treze anos, alguém me disse que na Paulista havia muitas mansões, cada uma mais linda que a outra. Chamei Ana Maria, uma colega do ginásio [às novas gerações, traduzo: era o período escolar que hoje corresponde do 5º ao 8º ano do ensino fundamental] e fomos passear de ônibus por aquela avenida imensa, larga, clara, com mansões lindas, todas com jardins enormes e bem cuidados. Olhávamos de um lado para outro, uma batendo no braço da outra, chamando a atenção para um detalhe, uma fachada especial, uma cor diferente daquelas que estávamos acostumadas, Ana Maria e eu, em nosso bairro de gente simples. De repente, passamos pelo parque Trianon, mas não o reconheci. Era apenas um parque.
Fui revê-lo somente muitos anos mais tarde, quando já morava em outra cidade e fui a trabalho em São Paulo. Não existiam mais os casarões da Paulista, agora eram arranha-céus, prédios lindíssimos, num dos quais eu estava realizando um trabalho que adoro. Mas o parque ainda estava, forte e resistente a tantas mudanças, assim como eu. Entrei ansiosa, procurando por ele, meu "bao", e fiquei emocionada ao vê-lo de longe, parecendo muito menor do que era na minha lembrança. Passei minhas mãos por suas pedras, acariciei o cão e deixei que suas águas escorressem por entre meus dedos, brincando com eles. Caminhei por um certo trecho, sentei-me num dos bancos e fiquei ali, parada no tempo e no espaço, procurando por aquela atmosfera que sentia quando era apenas uma garotinha. E me senti feliz!
Sempre reclamamos das nossas rotinas, mas quando não as temos mais, nos sentimos meio perdidos. Por vezes, percebemos como aquela rotina, da qual reclamávamos, foi importante, como nos marcou e como, na maioria das vezes, sinalizou um novo caminho.
Quando ouvi uma voz inconfundível dizendo, numa propaganda da Natura, a rotina do espelho é o oposto, todos os meus alertas internos ficaram ligados de tal forma que não tive outra opção que não fosse pesquisar que poema e que poeta eram aqueles. Compartilho com vocês essa que é mais uma maravilha do Arnaldo Antunes.
ROTINA
A idéia é a rotina do papel
O céu é a rotina do edifício
O início é a rotina do final
A escolha é a rotina do gosto
A rotina do espelho é o oposto
A rotina do perfume é a lembrança
O pé é a rotina da dança
A rotina da garganta é o rock
A rotina da mão é o toque
Julieta é a rotina do queijo
A rotina da boca é o desejo
Vento é a rotina do assobio
A rotina da pele é o arrepio
A rotina do caminho é a direção
A rotina do destino é a certeza
Toda rotina tem sua beleza

domingo, 6 de julho de 2008

Um desafio: integrar!

Com licença, blogueiros e leitores em geral. Estou me sentindo, como sempre me sinto ao começar algo novo, como uma criança, curiosa, ansiosa, descobrindo, mexendo, errando, até que cada pedacinho seja percebido, aprendido e assimilado. Tentando construir meu blog, num momento de auto-reconstrução. Eliminando todos os excessos cometidos até aqui e dando espaço e liberdade para minhas experiências.
Não é fácil, todo aprendizado requer paciência e tempo. Da minha parte e das pessoas que, espero, venham a se interessar e gostar das histórias que trarei aqui. Serão histórias engraçadas, tristes, safadas, idiotas... mas todas verdadeiras. Pelo menos do meu ponto de vista, que é o único através do qual posso contar minha vida.
Gente e suas histórias sempre foram objetos de minha curiosidade e admiração. Mas escrever sempre foi um desejo, um desafio. Um curso feito para desempenhar funções bancárias, me ajudou a mudar minha opção, no vestibular, de Letras por Psicologia. Não o curso, propriamente, mas um dos instrutores, que era psicólogo – e foi o primeiro psicólogo que conheci na vida e que, aqui será chamado Rogério.
Em conversas fora de sala, falei a ele que pretendia cursar Letras pois, além de verdadeiro amor pelas infindáveis regrinhas de Português, a literatura sempre me encantou com sua profusão de personagens, de como cada um deles lidava com seus desafios, como se desenvolvia, que caminhos escolhia, as relações que estabelecia e suas conseqüências, que frutos colhia ao longo da estrada. Era um interesse genuíno por pessoas e suas relações e circunstâncias. Então, Rogério, com sua tranqüilidade, sabedoria, bom humor e sorridentes olhos verdes, me explicou que aquilo que me encantava e que me interessava se chamava Psicologia.
Meses depois, estava no meu primeiro dia de aula, na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, iniciando o curso de Psicologia. Amo profundamente essa ciência, devo a ela quase tudo que aprendi sobre mim mesma, sobre a vida, sobre as pessoas. Especialmente, desenvolveu-me um olhar mais ampliado e ao mesmo tempo mais aprofundado sobre a realidade, sobre as pessoas e sobre mim mesma.
Em nossos caminhos, quantas encruzilhadas, onde temos de fazer a opção. Mesmo que não nos arrependamos da escolha feita, seguiremos, muitas vezes, com a fantasia do que teríamos encontrado no caminho deixado para trás. Eventualmente, lá adiante, talvez possamos tentar voltar ou mesmo encontrar, por mero acaso, uma possibilidade de atalho que nos dê, ao menos, a idéia daquela estrada.
É com esse sentimento que inicio esta viagem, tentando, com minhas histórias, caminhar um pedacinho de uma estrada que, um dia, deixei para trás.
Foto: Os rios Solimões e Negro correm paralelos por longo trecho até que, finalmente, se integram: surge o Rio Amazonas.