sábado, 26 de julho de 2008

Inesquecível travessia...


Era apenas uma menina cursando o primário. Sempre com boas notas, acumulando algumas medalhas de Honra ao Mérito - devidamente entregues em cerimônias no cinema do bairro, onde os pais dos melhores alunos babavam orgulhosos e felizes. Para nós, era apenas mais uma oportunidade de estarmos com as colegas, reunidas, num local diferente, sem preocupação com aula ou com outra coisa qualquer. Nesse tempo, as salas de aula separavam meninas e meninos, situação que se repetia nos recreios, com espaços e brincadeiras bem diferentes entre elas e eles. Fora esses eventos, era aula todos os dias, de meio-dia e meia até quatro e meia da tarde, lição de casa, sessão de desenho, em preto e branco, na tv, e depois o Repórter Esso - que não me interessava muito e então era hora de ler um livro ou mesmo uma revista da irmã mais velha.
De maneira parecendo inesperada, estava de férias de final de ano e me dei conta que havia concluído o quarto ano. Primário terminado. Hora de procurar outra escola, um colégio, para fazer da quinta até a oitava série. O melhor do meu bairro, e o segundo melhor da cidade de São Paulo, era o Instituto de Educação Padre Anchieta. No ano anterior, chamava-se Instituto Feminino de Educação Padre Anchieta e dois anos depois, seria o Instituto Estadual de Educação Padre Anchieta. Um colégio lindo, enorme, com janelões austeros e imponentes. Eu tinha onze anos e me apaixonei por aquele lugar assim que atravessei os seus portões. Fui sozinha pedir informações para me matricular. Mal sabia eu as notícias que me aguardavam.
Na secretaria, me deram uma lista dos documentos necessários, incluindo duas fotos, e ainda a informação de que as inscrições terminariam naquele dia, ao final da tarde. Acredito que tenha olhado para a funcionária com olhos arregalados, tamanho o susto, e comecei a chorar. Mas não fiquei parada. Fui correndo e chorando para casa.
Minha mãe estava às voltas com o almoço e alguns pensionistas já estavam sentados à mesa, aguardando. As lágrimas saíam automaticamente dos meus olhos, mas eu explicava com clareza o que era necessário fazer. Então minha mãe, pela primeira vez, deixou que minha irmã servisse os pensionistas. Tirou o avental, pegou seus documentos, minha certidão de nascimento, meus boletins, minha mão, e saímos. Fomos ao Grupo Escolar Roca Dordal buscar meu histórico escolar e, depois, ao estúdio fotográfico. Por uns instantes, meu choro obedeceu minha vontade e estancou, voltando assim que a foto foi tirada. Aguardamos umas duas horas pela revelação, feita em caráter excepcional, dada a urgência da situação - caso contrário, só a teríamos no dia seguinte.
 
Munidas de todos os documentos, minha mãe e eu chegamos ao Anchieta. Apressei-a, quase corríamos, ansiosa que estava por fazer minha matrícula. Na secretaria, outra novidade. Para entrar no ginásio, era necessário fazer o chamado Quinto Ano, de Admissão. Para mim, não fazia qualquer diferença, queria era estudar ali. Tirando a dúvida da minha mãe, a atendente explicou que não teria nenhuma prova, os alunos que fizeram o primário naquele mesmo colégio, tinham sua vaga garantida no quinto ano. Apenas 10 vagas seriam destinadas para alunos de outras escolas, e o critério utilizado seria um simples sorteio. Eu fiquei quieta, já acostumada com as lágrimas teimosas, apenas ouvindo todas aquelas informações. De tudo, entendi que no dia seguinte, sábado, eu teria que ser uma das sorteadas se quisesse estudar ali. E eu queria muito, era tudo o que eu mais queria. Minha mãe assinou os documentos e saímos, levando uma folha de papel com o número da minha inscrição. Já era bem tarde, minha mãe e eu não tínhamos almoçado nem sequer tomado um copo d'água, mas nem demos importância a isso. E ela ainda me atendeu num estranho pedido: que fôssemos à Igreja. Eu me ajoelhei diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida e, por livre iniciativa, pedi a ela que me ajudasse, que eu fosse sorteada. Prometi que se isso acontecesse, além de continuar a ser boa aluna, eu ficaria sem cortar meu cabelo até que terminasse o ginásio. Minha mãe só ficou sabendo da promessa no dia seguinte.
Levantei ansiosa, era o dia mais importante da minha vida. Quando chegamos no colégio, tinha tanta gente que me assustei. Todos aguardando pelo sorteio, pela oportunidade de estudar num excelente colégio, mantido pelo governo do Estado. Depois de um tempo infinito, a diretora veio com uma caixa onde estavam os cartões a serem sorteados. Abriu-se uma clareira à sua volta, e em tom solene, pediu a um senhor bem alto que estava mais afastado, que viesse tirar o primeiro dos dez números. Ele pegou uma ficha de papelão e entregou à dirigente que, em voz bem alta, anunciou: sessenta e nove! Dei um grito tão alto, tão forte, que ela veio me abraçar. Era o meu número! As lágrimas agora tinham outro motivo para correrem livres e soltas. Senti uma alegria tão grande que o abraço da minha mãe era a única coisa que eu percebia à minha volta. Não vi nem ouvi mais nada. Em pensamento, agradecia à imensa ajuda de Nossa Senhora Aparecida e antevia como seriam maravilhosos meus cinco próximos anos.
 
Ponte Atcham, Inglaterra. Fotografia de Robert S. Cortright, copiada do seu site www.hevanet.com/bridgink.

sábado, 12 de julho de 2008

Rotina

Este bebedouro, cuja água sai da boca de um cão, fica no Parque Trianon, em São Paulo. Tentei uma montagem para destacá-lo e ainda mostrar um trecho do parque, que fica em plena avenida Paulista. Eu devia ter uns três anos quando meus pais - Antonio e Maria José - começaram a me levar lá todos os domingos. Essa foi minha primeira rotina - um bom tempo depois, minha mãe me contava que quando ia chegando sexta-feira, eu ficava impaciente, perguntando a toda hora que dia da semana era, quando iríamos ao "bao". Era assim que eu resumia o nome do meu cantinho especial, pelo qual esperava, ansiosamente, durante uma imensa semana. Lá, corria, brincava com alguma outra criança, colhia pequenas flores, comia biju. Também adorava me encostar em alguma árvore e olhar para cima, para sua copa, que parecia encostar no céu. Mas o que mais me dava prazer, era ir para o colo do meu pai para poder alcançar aquele filete de água para beber ou simplesmente ficar me deliciando com o geladinho que escorria pelas minhas mãos. E meu pai todo bobo - como fica todo pai que ama seus filhos - me segurava pelo tempo que eu quisesse brincar com aquela água que até hoje escorre pela boca do meu "bao".
Esses inesquecíveis passeios duraram cerca de dois anos e meio, até que meu pai faleceu e nunca mais minha mãe e eu fomos ao Trianon. Devia ser muito difícil para ela voltar àquele lugar. Eu me acostumei a sentir a falta, do parque e do meu pai e novas rotinas se introduziram.
Um dia, quando já tinha uns treze anos, alguém me disse que na Paulista havia muitas mansões, cada uma mais linda que a outra. Chamei Ana Maria, uma colega do ginásio [às novas gerações, traduzo: era o período escolar que hoje corresponde do 5º ao 8º ano do ensino fundamental] e fomos passear de ônibus por aquela avenida imensa, larga, clara, com mansões lindas, todas com jardins enormes e bem cuidados. Olhávamos de um lado para outro, uma batendo no braço da outra, chamando a atenção para um detalhe, uma fachada especial, uma cor diferente daquelas que estávamos acostumadas, Ana Maria e eu, em nosso bairro de gente simples. De repente, passamos pelo parque Trianon, mas não o reconheci. Era apenas um parque.
Fui revê-lo somente muitos anos mais tarde, quando já morava em outra cidade e fui a trabalho em São Paulo. Não existiam mais os casarões da Paulista, agora eram arranha-céus, prédios lindíssimos, num dos quais eu estava realizando um trabalho que adoro. Mas o parque ainda estava, forte e resistente a tantas mudanças, assim como eu. Entrei ansiosa, procurando por ele, meu "bao", e fiquei emocionada ao vê-lo de longe, parecendo muito menor do que era na minha lembrança. Passei minhas mãos por suas pedras, acariciei o cão e deixei que suas águas escorressem por entre meus dedos, brincando com eles. Caminhei por um certo trecho, sentei-me num dos bancos e fiquei ali, parada no tempo e no espaço, procurando por aquela atmosfera que sentia quando era apenas uma garotinha. E me senti feliz!
Sempre reclamamos das nossas rotinas, mas quando não as temos mais, nos sentimos meio perdidos. Por vezes, percebemos como aquela rotina, da qual reclamávamos, foi importante, como nos marcou e como, na maioria das vezes, sinalizou um novo caminho.
Quando ouvi uma voz inconfundível dizendo, numa propaganda da Natura, a rotina do espelho é o oposto, todos os meus alertas internos ficaram ligados de tal forma que não tive outra opção que não fosse pesquisar que poema e que poeta eram aqueles. Compartilho com vocês essa que é mais uma maravilha do Arnaldo Antunes.
ROTINA
A idéia é a rotina do papel
O céu é a rotina do edifício
O início é a rotina do final
A escolha é a rotina do gosto
A rotina do espelho é o oposto
A rotina do perfume é a lembrança
O pé é a rotina da dança
A rotina da garganta é o rock
A rotina da mão é o toque
Julieta é a rotina do queijo
A rotina da boca é o desejo
Vento é a rotina do assobio
A rotina da pele é o arrepio
A rotina do caminho é a direção
A rotina do destino é a certeza
Toda rotina tem sua beleza

domingo, 6 de julho de 2008

Um desafio: integrar!

Com licença, blogueiros e leitores em geral. Estou me sentindo, como sempre me sinto ao começar algo novo, como uma criança, curiosa, ansiosa, descobrindo, mexendo, errando, até que cada pedacinho seja percebido, aprendido e assimilado. Tentando construir meu blog, num momento de auto-reconstrução. Eliminando todos os excessos cometidos até aqui e dando espaço e liberdade para minhas experiências.
Não é fácil, todo aprendizado requer paciência e tempo. Da minha parte e das pessoas que, espero, venham a se interessar e gostar das histórias que trarei aqui. Serão histórias engraçadas, tristes, safadas, idiotas... mas todas verdadeiras. Pelo menos do meu ponto de vista, que é o único através do qual posso contar minha vida.
Gente e suas histórias sempre foram objetos de minha curiosidade e admiração. Mas escrever sempre foi um desejo, um desafio. Um curso feito para desempenhar funções bancárias, me ajudou a mudar minha opção, no vestibular, de Letras por Psicologia. Não o curso, propriamente, mas um dos instrutores, que era psicólogo – e foi o primeiro psicólogo que conheci na vida e que, aqui será chamado Rogério.
Em conversas fora de sala, falei a ele que pretendia cursar Letras pois, além de verdadeiro amor pelas infindáveis regrinhas de Português, a literatura sempre me encantou com sua profusão de personagens, de como cada um deles lidava com seus desafios, como se desenvolvia, que caminhos escolhia, as relações que estabelecia e suas conseqüências, que frutos colhia ao longo da estrada. Era um interesse genuíno por pessoas e suas relações e circunstâncias. Então, Rogério, com sua tranqüilidade, sabedoria, bom humor e sorridentes olhos verdes, me explicou que aquilo que me encantava e que me interessava se chamava Psicologia.
Meses depois, estava no meu primeiro dia de aula, na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, iniciando o curso de Psicologia. Amo profundamente essa ciência, devo a ela quase tudo que aprendi sobre mim mesma, sobre a vida, sobre as pessoas. Especialmente, desenvolveu-me um olhar mais ampliado e ao mesmo tempo mais aprofundado sobre a realidade, sobre as pessoas e sobre mim mesma.
Em nossos caminhos, quantas encruzilhadas, onde temos de fazer a opção. Mesmo que não nos arrependamos da escolha feita, seguiremos, muitas vezes, com a fantasia do que teríamos encontrado no caminho deixado para trás. Eventualmente, lá adiante, talvez possamos tentar voltar ou mesmo encontrar, por mero acaso, uma possibilidade de atalho que nos dê, ao menos, a idéia daquela estrada.
É com esse sentimento que inicio esta viagem, tentando, com minhas histórias, caminhar um pedacinho de uma estrada que, um dia, deixei para trás.
Foto: Os rios Solimões e Negro correm paralelos por longo trecho até que, finalmente, se integram: surge o Rio Amazonas.