sábado, 12 de julho de 2008

Rotina

Este bebedouro, cuja água sai da boca de um cão, fica no Parque Trianon, em São Paulo. Tentei uma montagem para destacá-lo e ainda mostrar um trecho do parque, que fica em plena avenida Paulista. Eu devia ter uns três anos quando meus pais - Antonio e Maria José - começaram a me levar lá todos os domingos. Essa foi minha primeira rotina - um bom tempo depois, minha mãe me contava que quando ia chegando sexta-feira, eu ficava impaciente, perguntando a toda hora que dia da semana era, quando iríamos ao "bao". Era assim que eu resumia o nome do meu cantinho especial, pelo qual esperava, ansiosamente, durante uma imensa semana. Lá, corria, brincava com alguma outra criança, colhia pequenas flores, comia biju. Também adorava me encostar em alguma árvore e olhar para cima, para sua copa, que parecia encostar no céu. Mas o que mais me dava prazer, era ir para o colo do meu pai para poder alcançar aquele filete de água para beber ou simplesmente ficar me deliciando com o geladinho que escorria pelas minhas mãos. E meu pai todo bobo - como fica todo pai que ama seus filhos - me segurava pelo tempo que eu quisesse brincar com aquela água que até hoje escorre pela boca do meu "bao".
Esses inesquecíveis passeios duraram cerca de dois anos e meio, até que meu pai faleceu e nunca mais minha mãe e eu fomos ao Trianon. Devia ser muito difícil para ela voltar àquele lugar. Eu me acostumei a sentir a falta, do parque e do meu pai e novas rotinas se introduziram.
Um dia, quando já tinha uns treze anos, alguém me disse que na Paulista havia muitas mansões, cada uma mais linda que a outra. Chamei Ana Maria, uma colega do ginásio [às novas gerações, traduzo: era o período escolar que hoje corresponde do 5º ao 8º ano do ensino fundamental] e fomos passear de ônibus por aquela avenida imensa, larga, clara, com mansões lindas, todas com jardins enormes e bem cuidados. Olhávamos de um lado para outro, uma batendo no braço da outra, chamando a atenção para um detalhe, uma fachada especial, uma cor diferente daquelas que estávamos acostumadas, Ana Maria e eu, em nosso bairro de gente simples. De repente, passamos pelo parque Trianon, mas não o reconheci. Era apenas um parque.
Fui revê-lo somente muitos anos mais tarde, quando já morava em outra cidade e fui a trabalho em São Paulo. Não existiam mais os casarões da Paulista, agora eram arranha-céus, prédios lindíssimos, num dos quais eu estava realizando um trabalho que adoro. Mas o parque ainda estava, forte e resistente a tantas mudanças, assim como eu. Entrei ansiosa, procurando por ele, meu "bao", e fiquei emocionada ao vê-lo de longe, parecendo muito menor do que era na minha lembrança. Passei minhas mãos por suas pedras, acariciei o cão e deixei que suas águas escorressem por entre meus dedos, brincando com eles. Caminhei por um certo trecho, sentei-me num dos bancos e fiquei ali, parada no tempo e no espaço, procurando por aquela atmosfera que sentia quando era apenas uma garotinha. E me senti feliz!
Sempre reclamamos das nossas rotinas, mas quando não as temos mais, nos sentimos meio perdidos. Por vezes, percebemos como aquela rotina, da qual reclamávamos, foi importante, como nos marcou e como, na maioria das vezes, sinalizou um novo caminho.
Quando ouvi uma voz inconfundível dizendo, numa propaganda da Natura, a rotina do espelho é o oposto, todos os meus alertas internos ficaram ligados de tal forma que não tive outra opção que não fosse pesquisar que poema e que poeta eram aqueles. Compartilho com vocês essa que é mais uma maravilha do Arnaldo Antunes.
ROTINA
A idéia é a rotina do papel
O céu é a rotina do edifício
O início é a rotina do final
A escolha é a rotina do gosto
A rotina do espelho é o oposto
A rotina do perfume é a lembrança
O pé é a rotina da dança
A rotina da garganta é o rock
A rotina da mão é o toque
Julieta é a rotina do queijo
A rotina da boca é o desejo
Vento é a rotina do assobio
A rotina da pele é o arrepio
A rotina do caminho é a direção
A rotina do destino é a certeza
Toda rotina tem sua beleza

Nenhum comentário: