Aos nove anos, pela primeira vez fui à casa dos meus avós, num sítio do interior de São Paulo. E ali eu aprendi, dentre tantas outras coisas, que havia um tipo muito estranho de banheiro: uma pequena casinha, bem distante da moradia, onde havia, apenas, um buraco no chão, com tábuas à volta, nas quais se apoiavam os pés e se tentava ficar agachada, mantendo o equilíbrio. Coisa mais incrível não conhecerem um vaso sanitário igual aos que havia lá em casa e na escola, pensava eu, enquanto me firmava para não cair naquele lugar asqueroso. Quanto ao banho, principalmente porque fazia muito frio, achei que era melhor do que em casa: uma grande bacia, no quarto, com água quentinha, trazida numa chaleira, sempre fumegante sobre o fogão a lenha. Seria um prenúncio das banheiras, hoje colocadas, praticamente, dentro de quartos amplos e modernos.
Alguns anos depois, mudei-me para o Rio de Janeiro e minha mãe - Maria José - veio morar comigo. Era um apartamento muito confortável, daqueles antigos, no bairro do Flamengo. O banheiro era imenso, com banheira e tudo. Minha mãe me perguntou que peça era aquela ao lado do vaso sanitário. Bidê, disse-lhe eu, explicando função e funcionamento daquela novidade. Dias depois, eu estava distraída vendo um programa qualquer na tv, quando minha mãe saiu do banheiro, rindo muito. Era engraçado ver minha mãe rir. Em primeiro lugar, porque não era tão comum, e também porque quase não emitia som, mas a barriga se movimentava para cima e para baixo, e sua expressão ficava engraçada, parecia chorar. Nesse dia, ria tanto que fez um gesto ainda mais raro que as risadas: jogou o corpo, relaxado, contra a parede, e não conseguia falar. O que foi, mãe? Fala! Então ela se sentou ao meu lado e disse que foi experimentar - como era mesmo o nome? Ah, sim, bidê. Então, fui experimentar e, enquanto estava controlando a quantidade de água, pensei: já que não comes, bebes! Não, minha mãe não era portuguesa, mas conviveu, por anos, com meu pai, legítimo lusitano, que falava muita besteira, quem sabe, fazendo-a rir daquela sua maneira, meio tímida, meio sem jeito, muito mais do que eu tenha podido registrar!
Rimos muito nesse dia! E nem nos demos conta de que, ali, começamos um novo relacionamento, o de amigas, que riam juntas de uma coisa que, há algum tempo atrás, seria incompatível num relacionamento mãe e filha.
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