domingo, 10 de agosto de 2008

Risos

O banheiro está, cada vez mais, integrado aos demais cômodos, à decoração. Já os vemos sem paredes, fazendo parte de suítes arrojadas e maravilhosas. Sentar-se ao vaso sanitário, tomar um banho, são atos naturais. Isso é óbvio, alguém poderia me dizer, e eu concordo. Mas nem sempre foi assim. Tudo, relacionado ao corpo, era muito escondido, não declarado, mas indiretamente tocado, quando necessário ou em ocasiões especiais. O primeiro banheiro de que me lembro, ficava relegado à importância que se dava aos dejetos do corpo. Por isso, ficava bem afastado da casa, no fundo do quintal. Tinha, apenas, vaso sanitário, descarga com cordinha, local para se colocar o papel - não queiram saber o tipo, digo apenas que não era um papel destinado exclusivamente à finalidade conhecida - e o chuveiro. No vaso, não havia tampa, sentava-se diretamente na louça. Talvez uma estratégia para não se demorar demais, pensando na vida, lendo algum pequeno recorte de notícia, inventando uma música... Após cada banho, enxugava-se todo o banheiro, e por isso estava sempre limpo. Era um banheiro para todos - cinco pensionistas, minha mãe, minha irmã, meu cunhado, meu sobrinho, meu irmão e eu. Ruim era sentir vontade de fazer xixi durante a madrugada. Um dia, meu cunhado me levou para assistir o filme da Branca de Neve. À noite, ainda impressionada pelas imagens da tela, indo para o banheiro, olhei para o céu e uma lua cheia me fez lembrar da figura da bruxa malvada, mostrando uma reluzente maçã... Fui diminuindo o passo, o coração cada vez mais acelerado, então cometi uma das primeiras transgressões da minha vida: abaixei a calcinha, fiquei de cócoras e fiz o xixi no ralo - que ficava no meio do caminho entre a casa e o banheiro -, olhando para a lua, tentando visualizar a figura de São Jorge e do dragão, talvez querendo ser salva de maldades da velha nariguda.
Aos nove anos, pela primeira vez fui à casa dos meus avós, num sítio do interior de São Paulo. E ali eu aprendi, dentre tantas outras coisas, que havia um tipo muito estranho de banheiro: uma pequena casinha, bem distante da moradia, onde havia, apenas, um buraco no chão, com tábuas à volta, nas quais se apoiavam os pés e se tentava ficar agachada, mantendo o equilíbrio. Coisa mais incrível não conhecerem um vaso sanitário igual aos que havia lá em casa e na escola, pensava eu, enquanto me firmava para não cair naquele lugar asqueroso. Quanto ao banho, principalmente porque fazia muito frio, achei que era melhor do que em casa: uma grande bacia, no quarto, com água quentinha, trazida numa chaleira, sempre fumegante sobre o fogão a lenha. Seria um prenúncio das banheiras, hoje colocadas, praticamente, dentro de quartos amplos e modernos.
Alguns anos depois, mudei-me para o Rio de Janeiro e minha mãe - Maria José - veio morar comigo. Era um apartamento muito confortável, daqueles antigos, no bairro do Flamengo. O banheiro era imenso, com banheira e tudo. Minha mãe me perguntou que peça era aquela ao lado do vaso sanitário. Bidê, disse-lhe eu, explicando função e funcionamento daquela novidade. Dias depois, eu estava distraída vendo um programa qualquer na tv, quando minha mãe saiu do banheiro, rindo muito. Era engraçado ver minha mãe rir. Em primeiro lugar, porque não era tão comum, e também porque quase não emitia som, mas a barriga se movimentava para cima e para baixo, e sua expressão ficava engraçada, parecia chorar. Nesse dia, ria tanto que fez um gesto ainda mais raro que as risadas: jogou o corpo, relaxado, contra a parede, e não conseguia falar. O que foi, mãe? Fala! Então ela se sentou ao meu lado e disse que foi experimentar - como era mesmo o nome? Ah, sim, bidê. Então, fui experimentar e, enquanto estava controlando a quantidade de água, pensei: já que não comes, bebes! Não, minha mãe não era portuguesa, mas conviveu, por anos, com meu pai, legítimo lusitano, que falava muita besteira, quem sabe, fazendo-a rir daquela sua maneira, meio tímida, meio sem jeito, muito mais do que eu tenha podido registrar!
Rimos muito nesse dia! E nem nos demos conta de que, ali, começamos um novo relacionamento, o de amigas, que riam juntas de uma coisa que, há algum tempo atrás, seria incompatível num relacionamento mãe e filha.

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