domingo, 31 de agosto de 2008

Enterro do meu pai

Dificilmente, num dia desses olhados pela janela, muito longos, cheios de sol e de céu azul, mas sentindo, por dentro, tudo cinza, tudo muito nublado, misturado e confuso, deixo de pensar numa certa menina. Uma menina que, precocemente, perdeu um grande amor...

Uma sala cheia de pessoas, grande parte conhecidas, muitas estiveram lá em casa fazia um ano, numa grande festa, comemorando os quarenta anos da minha mãe. Lembro que, naquele dia, me enfiei toda feliz e surpresa naquela fila de pessoas que riam e cantavam, numa inusitada maneira de se despedirem e irem para suas casas, depois de horas de conversa, salgados, doces e bebidas.

Na minha memória de menina, havia se passado uma eternidade, até o dia em que revia algumas daquelas pessoas na mesma sala. Mas era tudo muito diferente. Cortinas negras cobriam janelas e portas, as roupas eram escuras e as conversas em tom muito baixo, sussurrante. Uma tia querida me pegou no colo, me possibilitando ver meu pai. Estava dormindo, e tinha umas manchas arroxeadas ao lado do rosto, desconhecidas por mim. Estava tão próxima dele que foi natural dar-lhe um beijo. Espontâneo, carinhoso. Voltei para o chão e fiquei olhando aquela estranha cama. Ficava no alto de uma mesa, parecia uma caixa. Olhei por baixo da mesa e vi um aparelho que parecia ventilador - finalmente descobri de onde vinha aquele cheiro estranho, forte, ruim. Saí de perto e fiquei olhando aquelas pessoas se aproximarem do meu pai. Fecharam a caixa onde ele estava e começaram a levá-lo embora. Como sempre fazia, ia ele à frente, conduzindo uma multidão atrás de si.

Uma sala quase vazia. Vejo a mim, tão pequenina, aos cinco anos. Em pé, com um vestido amarrado na cintura. Na minha frente, uma cadeira onde minha mãe estava sentada, segurando ao colo meu irmão. Ele completaria um ano dali a vinte e cinco dias. Também seria aniversário do meu pai e, certamente, haveria uma nova festa naquela sala.

Não houve a festa, não teve mais risos nem conversas animadas naquela sala. Ficou congelada a imagem da menina, sua mãe e um bebê. Nenhuma expressão, nenhum gesto, nenhuma palavra.

Uma noite, pensei naquela sala. Era uma coisa tão distante, morávamos em outra casa... Lembrei de cada detalhe e chorei. Parecia que o choro tinha ficado represado, preso, até que eu tivesse a condição de compreender o que acontecera e, finalmente, perceber e sentir a grande perda. Chorei tanto, abraçada ao travesseiro, que a garganta queimava. Tudo dentro de mim queimava de dor. Um pensamento brotou de forma natural, mas definitiva: eu tenho nove anos e hoje eu compreendi que meu pai está morto e, por isso, não vai mais voltar.

Anos depois, soube que o aparelho na sala, sob o caixão do meu pai, era um ozonizador, usado na época para esterilizar o ar, quando havia uma grande concentração de pessoas.

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