terça-feira, 23 de setembro de 2008

Paris, je t'aime vraiment!

Esta semana faz vinte e cinco anos que voltei de Paris, onde vivi como se estivesse num maravilhoso, por vinte cinco dias. Desde então, sinto falta dessa cidade extremamente bonita, inspiradora, perfeita. Até hoje, não consegui retornar, mas por lá permanece um pedaço muito significativo do meu coração, da minha alma. Todo meu amor por Paris e, de modo geral, pela França, começou nas aulas de francês, no ginásio. Mme. Hélène era a professora e que fazia questão de assim ser chamada. Sempre tinha fotos lindas de Paris, tiradas em suas férias. Também fazia tradução das músicas da época e isso era muito especial.
Ir para a França foi um dos atos mais estravagantes na minha vida. Não fui, simplesmente, com a intenção de passear: fui para ficar. Uma atitude radical, definitiva. Um rompante dos grandes e, sem qualquer planejamento, apenas o desejo de esquecer um amor que começava a ser passado. Pedi demissão de um trabalho onde estava havia dez anos, vendi tudo que possuía, separei roupas e objetos pessoais que cabiam em duas malas e lá fui eu. Um querido amigo me acompanhou nos primeiros dias da viagem, em Portugal e na Espanha, onde permaneci mais do que o esperado, pois fui surpreendida com dificuldades em conseguir meu visto de entrada. Isso mesmo, não fui com o visto, pois tudo me parecia tão mais fácil e perfeito longe daqui...
Quando, finalmente, cheguei, respirei fundo, procurando absorver o máximo possível daquele momento. Não pude, porém, me entregar a esse estado de graça: tive de procurar, imediatamente, um hotel para me hospedar, pois eram mais de onze horas da noite e a estação de trem /gare/ já estava fechando. O escritório /bureau/ de turismo já havia fechado; por sorte, havia um telefone público grátis, de onde se podia ligar para todos os hotéis da cidade, cujos números estavam num catálogo, disponível aos turistas. Hora de testar meu francês aprendido nas aulas do ginásio e em um ano de Aliança Francesa. Comecei a procura por aqueles de uma estrela, mas só recebia uma resposta: c'est occupé. Fui aumentando as estrelas, conforme diminuíam as chances de me acomodar, ao menos, por aquela noite, mas todos estavam lotados. Já me atrevendo a um hotel quatro estrelas, perguntei ao atendente se todos me diziam estar sem disponibilidade porque não tinham mesmo ou porque eu, uma turista brasileira, me apresentava àquela hora e sem reserva, chegando de trem. Ele riu e perguntou de onde eu estava chegando. Falei que de Madri. Disse que então eu fosse para seu hotel que, enquanto isso, ele tentaria um outro para me acomodar. Peguei um taxi e, finalmente, pude observar as ruas, as pessoas, os famosos bares, ouvi até música.
O hotel ficava no Boulevard Saint Germain e já era esperada por um rapaz lindo, que devia ser recepcionista, porteiro, telefonista, pois não vi nenhum outro funcionário por ali. Assim que entrei, trancou a porta, dizendo que todos os hóspedes já haviam chegado e se recolhido. Disse que Paris estava sediando três grandes feiras, naqueles dias, daí a dificuldade de se encontrar acomodação. Gentilíssimo, disse que me eu poderia passar aquela noite ali e que já teria conseguido uma reserva em outro hotel, ali por perto, para o dia seguinte. Então, abriu uma porta lateral à recepção, entrou, transformou um sofá numa ampla cama de casal, colocou os lençóis e travesseiros, me deu toalhas, mostrou o banheiro, contíguo àquela ampla sala, onde eu poderia tomar um banho e descansar. Achando tudo aquilo muito natural, pois estava em Paris, apenas sorri e agradeci. Ele saiu e fechou as portas de correr. Tomei um banho delicioso, vesti uma camisola e afundei naquela cama. O cobertor era bem quente e macio. Relaxei. Estava quase dormindo quando ouvi o barulho da porta se abrindo. Ele entrou, apenas sorriu, pegou outras toalhas, tomou banho e... deitou-se ao meu lado. Começou a conversar como se fôssemos um casal com muito tempo de convivência, contou do curso que fazia na faculdade, que aquele trabalho era um achado, pois podia ir à aula pela manhã e estudar à tarde. Ficava na recepção à noite, até que o último hóspede chegasse e, então, dormia. Pensei que aqueles hóspedes eram muito comportados, todos "em casa" antes da meia-noite. Mal comecei a pensar se ele ia mesmo dormir ali, ele me abraça, me acaricia e percebo sua excitação rápida e inquestionável. Essa era uma situação muito estranha e eu não estava em condições de me fazer de difícil. E ele era lindo. Voilà! Sem mais nem menos, estava tentando me penetrar e estranhou que eu ainda estivesse de calcinha. Mas será que por aqui a coisa é desse jeito, com as garotas assim, já preparadas, para uma transa? Não teve beijo na boca - bem, não o que eu chamo de beijo na boca - e a coisa foi tão fria que eu fiquei mais como observadora do que participante. Virou-se para o lado tão inesperadamente quanto se aproximou, e dormiu. Fiquei ali, deitada, sem sentir nem prazer nem qualquer outra coisa, então vi, por uma fresta da cortina, um pedacinho de céu estrelado. Sorri e mandei um beijo para aquele céu. Estava em Paris e tinha sido, de alguma forma, bem recebida.
Fui acordada por ele com uma bela bandeja de café da manhã. Disse que já estava indo para a faculdade, me deu um beijo na boca e outro na testa e saiu. Comecei a ouvir vozes do outro lado da porta, mas ignorei. Tomei meu café, um banho e arrumei minhas coisas. Quando abri a porta, uma recepcionista sorriu e, assim que despachou dois hóspedes, sorridente me disse que um motorista levaria minhas malas para o hotel cujo cartão estava me entregando. Sugeriu que eu desse umas voltas, conhecesse um pouco as redondezas e, a partir do meio-dia, poderia dar entrada no hotel reservado. Agradeci e acatei as sugestões.
Nunca mais vi meu, digamos assim, anfitrião. Liguei duas vezes para agradecer, mas não o encontrei, então apenas deixei uma mensagem. Estive muito ocupada, conferindo todos os lugares vistos em fotografias, filmes e postais. Meu francês melhorava a cada dia, e até me garantiu elogio de um taxista - isso não é pouca coisa, não, principalmente porque ele era francês mesmo! Disse que eu falava como uma parisiense! Um dos maiores elogios que já recebi na vida. Inesquecível.
Naqueles dias, as emoções se sobrepunham, me surpreendiam: diante da Gioconda, no Louvre, namorando a Torre Eiffel, das escadarias do Trocadéro, conversando com algumas pessoas, nos imprescindíveis cafés, admirando os artistas em Montmartre, enfim, descobrindo a cidade pouco a pouco, aprendendo a ver a vida de um novo ângulo.

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